Operação Antidotum apura duas frentes de supostas irregularidades; prejuízo estimado pelo Ministério Público já chega a pelo menos R$ 4,9 milhões
Novos detalhes da investigação sobre supostas fraudes envolvendo a Santa Casa de Campo Grande vieram à tona nos últimos dias após a deflagração da Operação Antidotum. A apuração envolve contratos da Associação Beneficente Santa Casa de Campo Grande e da Operadora Santa Casa Saúde e, até o momento, aponta prejuízo de pelo menos R$ 4,9 milhões.
A operação foi deflagrada na sexta-feira (11) pelo Grupo Especial de Combate à Corrupção (Gecoc), com participação do Grupo de Atuação Especial de Repressão ao Crime Organizado (Gaeco), ambos do Ministério Público de Mato Grosso do Sul.
Seis pessoas foram presas preventivamente e 36 mandados de busca e apreensão foram cumpridos em Campo Grande, Dourados e Goiânia (GO).
As prisões preventivas foram mantidas após audiência de custódia. Entre os presos estão integrantes da então direção da Santa Casa e pessoas relacionadas aos contratos investigados.
Investigação aponta duas frentes
As informações divulgadas até agora mostram que a investigação foi dividida em dois principais núcleos.
O primeiro envolve um contrato para digitalização de prontuários médicos da Santa Casa. O segundo concentra-se em contratos firmados pela Operadora Santa Casa Saúde com empresas que, segundo a investigação, teriam vínculos entre si e ligação com pessoas próximas à administração da instituição.
No contrato de digitalização, o valor previsto era de R$ 1,8 milhão por ano durante três anos, chegando a R$ 5,4 milhões.
De acordo com dados apresentados na investigação, a empresa contratada deveria digitalizar aproximadamente 42 milhões de páginas. Até fevereiro de 2026, no entanto, teriam sido digitalizadas cerca de 3,8 milhões — aproximadamente 9% do volume previsto.
Apesar da produção abaixo do estabelecido, os investigadores apontam que os pagamentos mensais teriam sido realizados integralmente.
Segundo os dados divulgados, a empresa recebeu aproximadamente R$ 2,1 milhões durante 14 meses. Considerando a quantidade efetivamente digitalizada, a investigação calcula que o serviço executado corresponderia a cerca de R$ 190,9 mil.
O Ministério Público estima que somente nessa frente o suposto desvio tenha alcançado cerca de R$ 1,4 milhão no primeiro ano.
R$ 9,6 milhões pagos pela operadora
A segunda frente da Operação Antidotum investiga contratos da Operadora Santa Casa Saúde.
Segundo a apuração, empresas relacionadas ao advogado Paulo da Cruz Duarte receberam aproximadamente R$ 9,6 milhões da operadora somente em 2025.
Os investigadores apontam que várias dessas empresas fariam parte do mesmo grupo econômico e apresentariam vínculos entre si.
Parte delas teria sido registrada em um mesmo endereço. De acordo com a investigação, o imóvel indicado nos cadastros chegou a ser encontrado desocupado durante as verificações.
A investigação também apura a relação dessas empresas com pessoas ligadas à administração da Santa Casa e as circunstâncias em que foram contratadas.
O prejuízo estimado nessa parte da investigação é de, no mínimo, R$ 3,5 milhões.
É importante diferenciar os valores: os R$ 9,6 milhões correspondem ao montante que teria sido pago pela Operadora Santa Casa Saúde às empresas investigadas em 2025. O prejuízo estimado até agora pelo Ministério Público nesse núcleo é de pelo menos R$ 3,5 milhões.
Somado ao prejuízo apontado no contrato de digitalização, o valor investigado chega atualmente a pelo menos R$ 4,9 milhões.
Contratos teriam ficado fora do alcance de órgãos de fiscalização
Outro ponto considerado relevante pelo Ministério Público é a forma como as informações financeiras teriam sido tratadas dentro da instituição.
Segundo a investigação, contratos, pagamentos e prestações de contas teriam sido sistematicamente omitidos de órgãos responsáveis pela fiscalização, incluindo o Conselho Fiscal da Santa Casa e a Controladoria-Geral do Estado.
Reportagens publicadas nesta segunda-feira (14) também revelaram que o Judiciário já havia registrado dificuldades relacionadas ao acesso a documentos contábeis da instituição.
A apuração agora busca reconstruir o caminho do dinheiro, identificar a participação individual de cada investigado e verificar a extensão dos prejuízos.
Seis pessoas permanecem presas
Foram presos preventivamente durante a Operação Antidotum:
Alir Terra Lima, então presidente da Santa Casa; Alessandro Dias Junqueira, diretor administrativo; Rinaldo Hakme Romano, ex-diretor da área financeira; Paulo Guilherme Guttierrez Mariosa, diretor adjunto de Finanças; Monique Gregório de Oliveira, funcionária ligada ao setor de prontuários; e Maurício Aparecido Benites, empresário ligado à empresa responsável pela digitalização.
As prisões foram analisadas em audiência de custódia e permanecem válidas.
A defesa de Alir Terra Lima informou que contesta as acusações e pretende pedir a revogação da prisão preventiva. Segundo manifestação divulgada pela imprensa, ela nega ter cometido irregularidades.
As responsabilidades individuais ainda serão analisadas no decorrer da investigação e de eventual processo judicial. Não há condenação definitiva dos investigados.
Mudança no comando da Santa Casa
Com a prisão de integrantes da administração, a Santa Casa passou por uma reorganização interna.
O vice-presidente Heitor Miguel Scheibeler assumiu a condução da instituição, conforme as regras estatutárias, juntamente com diretores suplentes.
O Conselho de Administração realizou reunião extraordinária após a operação e informou que os serviços do hospital continuam funcionando normalmente.
Em nota, a Santa Casa declarou que aguarda o esclarecimento dos fatos, manifestou solidariedade aos integrantes da diretoria atingidos pelas medidas judiciais e afirmou confiar na Justiça.
Investigação continua
A Operação Antidotum ainda está em andamento.
Documentos, computadores, celulares e outros materiais recolhidos durante os mandados de busca podem ser analisados pelo Ministério Público para aprofundar a apuração das movimentações financeiras e das relações entre empresas e investigados.
O próprio valor do prejuízo ainda não é considerado definitivo e poderá sofrer alterações conforme o avanço das análises.
Até esta segunda-feira (14), portanto, o cenário é de seis investigados presos preventivamente, duas principais frentes de apuração, R$ 9,6 milhões em pagamentos sob investigação na Operadora Santa Casa Saúde e prejuízo mínimo estimado em R$ 4,9 milhões no conjunto dos fatos investigados.
O caso segue sob investigação do Ministério Público de Mato Grosso do Sul.
Fontes: Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS), decisões judiciais relacionadas à Operação Antidotum, Campo Grande News, Primeira Página e informações públicas da Santa Casa de Campo Grande.